sábado, 4 de agosto de 2012

Crítica: Violeta Foi Para o Céu



A pessoa por trás do mito


Um dos mais expressivos nomes da cultura chilena, Violeta Parra é a estrela da cinebiografia Violeta Foi Para o Céu (Violeta Se Fue a los Cielos). Agraciada com seis prêmios internacionais, a obra recebeu o Prêmio do Júri Oficial do Festival de Sundance 2012, na categoria cinema mundial de ficção. O roteiro é inspirado no livro homônimo de Angél Parra, filho da personagem título. A direção é, por sua vez, assinada por Andrés Wood, que já tinha cinco longas-metragens no currículo, dentre eles Machuca (Machuca), de 2004.

Estruturado de forma não cronológica, o filme retrata diversos momentos entre a infância e a morte da cantora, compositora e artista plástica Violeta Parra (Francisca Gavilán). Um dos grandes nomes da cultura chilena, a protagonista era uma dos tantos filhos de uma índia com um professor de música. Após tornar-se órfã ainda criança, resta-lhe apenas um violão velho pertencente ao falecido pai viciado em jogos de azar. Seu contato com a música começou ainda nos seus tempos de menina, quando acompanha seu progenitor, Nicanor Parra (Christian Quevedo) em modestas apresentações nos bares da região em que viviam. Após passar um tempo se apresentando em uma companhia, a personagem decide focar seu trabalho nas músicas tradicionais do país, dedicando-se a pesquisar o folclore chileno e adquirindo fama internacional.

Guiado por uma participação de Violeta em um programa de TV, a montagem mantém-se circular, não sendosonfusa apesar de misturar diversos períodos temporais. Como é esclarecido ao final, os acontecimentos são apresentados desta forma forma, pois são uma espécie de fluxo de lembranças da protagonista à beira da morte. A ênfase fica, portanto, nos momentos teoricamente mais marcantes da vida da artista: como a morte do pai, a apresentação na Polônia comunista, a morte da filha, o relacionamento com o suíço Gilbert Favre (Thomas Durand) e o insucesso do que ela almejava ser a Universidade Folclórica do Chile.


Além de não seguir uma linha temporal de acontecimentos, o longa-metragem também é repleto de montagens paralelas. Dentre elas, se destaca o momento em que é cantada Volver a los 17, pois são mostradas de forma intercaladas duas apresentações da atriz: uma para seu povo, na Tenda; e outra para a alta sociedade, em um prédio luxuoso. Esse momento funciona, portanto, como uma ilustração do ponto alto em que ela se encontra. No entanto, logo após o ápice da música, a personagem já leva seu primeiro golpe ao perceber que seu canto não foi suficientemente valorizado pela burguesia chilena. O segundo baque da compositora só ocorre mais tarde, mas é mais forte, pois dessa vez é o público que não a apoia suficientemente.

A construção do filme tem ainda como mérito um roteiro sem irregularidades, o qual mantém momentos significativos ao longo de toda a trama. O final é, aliás, possivelmente, o momento mais forte da história, pois simboliza os conflitos e as lutas de Violeta. Assim como diz sua canção El Gavilán, a protagonista que se mostrava tão forte poderia também ser frágil perante o homem. Para evidenciar a identificação da personagem com uma metáfora criada por ela mesma, permeia-se as cenas finais com o ataque fatal de um gavião a uma galinha. Aterrorizada, a ave tenta fugir do predador, mas ela não consegue resistir, sucumbindo nas garras do animal mais poderoso. De mesma forma, a artista se sente ao ser abandonada pelo amante Gilbert e ao perceber que as apresentações na tenda não têm mais condições de continuar.


Apesar de ser uma cinebiografia, o roteiro não caiu na tentação de mostrar uma figura quase maculada. A Violeta Parra desse filme tem diversas facetas, é humana. Mostra-se, inclusive, tanto aquela que expôs no Museu do Louvre quanto a que deixou um bebê de nove meses sob os cuidados de outra criança. Afinal, a determinação da protagonista não é mostrada com idolatria, mas sim evidenciando os conflitos dessa mulher que tanto sofreu, teimou e se dedicou por ideais, convicções e desejos.

Centrado na personagem principal, o filme encontrou uma base extremamente sólida na interpretação de Francisca Gavilán. A chilena de 39 anos deu corpo e voz à protagonista, parecendo-se muito com a personagem principal. O trabalho de canto da atriz foi, inclusive, bastante eficaz, pois não fugiu às características do estilo de Violeta. Isso possibilitou, portanto, que não fosse necessário o uso de imagens e sonoras de arquivo, o que poderia gerar danos à coesão da trama.


Repleto de belas paisagens, a obra conta ainda com uma fotografia crua e carente de colorido. Os momentos no Chile foram mostrados em meio a uma atmosfera terrosa, enfatizando o pouco luxo das instalações. No entanto, em alguns momentos, as imagens em cor são substituídas pelo preto e branco oriundos teoricamente de uma câmera doméstica manejada em cena e de imagens de televisão. Com o intuito de evidenciar os sentimentos da protagonista, o filme é repleto de closes no rosto, em especial, nos olhos de Violeta. A exposição frequente de sua face funciona quase como um convite para adentrarmos na alma da personagem. A trilha sonora é, por sua vez, composta basicamente pelas músicas da figura principal, sendo a imensa maioria delas executadas dentro da própria história.

Violeta Foi Para o Céu é, enfim, uma interessante e emocionante narrativa de uma forte mulher latina. Muito mais do que um mito da cultura, mostrou-se os conflitos de um ser humano que persistiu o quanto pode. Com uma excelente atuação principal, uma trilha interessantíssima e um enredo bem construído, o filme vai muito além da mera documentação. As diversas qualidades da obra possibilitam, portanto, que mesmo o público que desconhece Violeta Parra aprecie o longa-metragem.

Violeta Foi Para o Céu
Título original: Violeta se Fue a los Cielos
Ano: 2011 Estreia no Brasil: Jul/2012
Direção: Andrés Wood
Roteiro: Eliseo Altunaga
Com: Francisca Gavilán, Thomas Durand, Christian Quevedo, entre outros.
Duração: 110 minutos

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