A pessoa por trás do mito
Um
dos mais expressivos nomes da cultura chilena, Violeta Parra é a
estrela da cinebiografia Violeta Foi Para o Céu (Violeta Se Fue a
los Cielos). Agraciada com seis prêmios internacionais, a obra
recebeu o Prêmio do Júri Oficial
do Festival de Sundance 2012, na categoria cinema mundial de
ficção. O roteiro é inspirado no livro homônimo de Angél Parra,
filho da personagem título. A direção é, por sua vez, assinada
por Andrés Wood, que já tinha cinco longas-metragens no currículo,
dentre eles Machuca (Machuca), de 2004.
Estruturado
de forma não cronológica, o filme retrata diversos momentos entre a
infância e a morte da cantora, compositora e artista plástica
Violeta Parra (Francisca Gavilán). Um dos grandes nomes da cultura
chilena, a protagonista era uma dos tantos filhos de uma índia com
um professor de música. Após tornar-se órfã ainda criança,
resta-lhe apenas um violão velho pertencente ao falecido pai viciado em
jogos de azar. Seu contato com a música começou ainda nos seus
tempos de menina, quando acompanha seu progenitor, Nicanor Parra
(Christian Quevedo) em modestas apresentações nos bares da região
em que viviam. Após passar um tempo se apresentando em uma
companhia, a personagem decide focar seu trabalho nas músicas
tradicionais do país, dedicando-se a pesquisar o folclore chileno e
adquirindo fama internacional.
Guiado
por uma participação de Violeta em um programa de TV, a montagem
mantém-se circular, não sendosonfusa apesar de misturar
diversos períodos temporais. Como é esclarecido ao final, os
acontecimentos são apresentados desta forma forma, pois são uma
espécie de fluxo de lembranças da protagonista à beira da morte. A
ênfase fica, portanto, nos momentos teoricamente mais marcantes da
vida da artista: como a morte do pai, a apresentação na Polônia
comunista, a morte da filha, o relacionamento com o suíço Gilbert
Favre (Thomas Durand) e o insucesso do que ela almejava ser a
Universidade Folclórica do Chile.
Além
de não seguir uma linha temporal de acontecimentos, o longa-metragem
também é repleto de montagens paralelas. Dentre elas, se destaca o
momento em que é cantada Volver a los 17, pois são
mostradas de forma intercaladas duas apresentações da atriz: uma
para seu povo, na Tenda; e outra para a alta sociedade, em um prédio
luxuoso. Esse momento funciona, portanto, como uma ilustração do
ponto alto em que ela se encontra. No entanto, logo após o ápice da
música, a personagem já leva seu primeiro golpe ao perceber que seu
canto não foi suficientemente valorizado pela burguesia chilena. O
segundo baque da compositora só ocorre mais tarde, mas é mais
forte, pois dessa vez é o público que não a apoia suficientemente.
A
construção do filme tem ainda como mérito um roteiro sem
irregularidades, o qual mantém momentos significativos ao longo de
toda a trama. O final é, aliás, possivelmente, o momento mais forte
da história, pois simboliza os conflitos e as lutas de Violeta.
Assim como diz sua canção El Gavilán, a protagonista que se
mostrava tão forte poderia também ser frágil perante o homem. Para
evidenciar a identificação da personagem com uma metáfora criada
por ela mesma, permeia-se as cenas finais com o ataque fatal de um
gavião a uma galinha. Aterrorizada, a ave tenta fugir do predador,
mas ela não consegue resistir, sucumbindo nas garras do animal mais
poderoso. De mesma forma, a artista se sente ao ser abandonada pelo
amante Gilbert e ao perceber que as apresentações na tenda não têm
mais condições de continuar.
Apesar
de ser uma cinebiografia, o roteiro não caiu na tentação de
mostrar uma figura quase maculada. A Violeta Parra desse filme tem
diversas facetas, é humana. Mostra-se, inclusive, tanto aquela que
expôs no Museu do Louvre quanto a que deixou um bebê de nove meses
sob os cuidados de outra criança. Afinal, a determinação da
protagonista não é mostrada com idolatria, mas sim evidenciando os
conflitos dessa mulher que tanto sofreu, teimou e se dedicou por
ideais, convicções e desejos.
Centrado
na personagem principal, o filme encontrou uma base extremamente
sólida na interpretação de Francisca Gavilán. A chilena de 39
anos deu corpo e voz à protagonista, parecendo-se muito com a
personagem principal. O trabalho de canto da atriz foi, inclusive,
bastante eficaz, pois não fugiu às características do estilo de
Violeta. Isso possibilitou, portanto, que não fosse necessário o
uso de imagens e sonoras de arquivo, o que poderia gerar danos à
coesão da trama.
Repleto
de belas paisagens, a obra conta ainda com uma fotografia crua e
carente de colorido. Os momentos no Chile foram mostrados em meio a
uma atmosfera terrosa, enfatizando o pouco luxo das instalações. No
entanto, em alguns momentos, as imagens em cor são substituídas
pelo preto e branco oriundos teoricamente de uma câmera doméstica
manejada em cena e de imagens de televisão. Com o intuito de
evidenciar os sentimentos da protagonista, o filme é repleto de
closes no rosto, em especial, nos olhos de Violeta. A
exposição frequente de sua face funciona quase como um convite para
adentrarmos na alma da personagem. A trilha sonora é, por sua vez,
composta basicamente pelas músicas da figura principal, sendo a imensa
maioria delas executadas dentro da própria história.
Violeta
Foi Para o Céu é, enfim, uma interessante e emocionante
narrativa de uma forte mulher latina. Muito mais do que um mito da
cultura, mostrou-se os conflitos de um ser humano que persistiu o
quanto pode. Com uma excelente atuação principal, uma trilha
interessantíssima e um enredo bem construído, o filme vai muito
além da mera documentação. As diversas qualidades da obra
possibilitam, portanto, que mesmo o público que desconhece Violeta Parra aprecie o longa-metragem.
Violeta
Foi Para o Céu
Título
original: Violeta se Fue a los Cielos
Ano:
2011 Estreia no Brasil: Jul/2012
Direção:
Andrés Wood
Roteiro:
Eliseo Altunaga
Com:
Francisca Gavilán, Thomas Durand, Christian Quevedo, entre outros.
Duração:
110 minutos




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