quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Crítica: Aqui é o Meu Lugar


Em vez de fama, este rockstar busca autoconhecimento


Ao telefone, um personagem conversa com a esposa. Num determinado momento, ela questiona se ele está tentando se encontrar. Em resposta, o protagonista diz que está no Novo México, não na Índia. No entanto, por mais aguda que seja a fala do eu fictício, Aqui é o Meu Lugar (This Must Be the Place) é justamente a jornada de autoconhecimento de um homem que vivia assombrado por acontecimentos do passado.

Mantendo-se da renda que construiu durante seus anos de fama, o ex-rockstar Cheyenne (Sean Penn) leva uma vida pacata em sua mansão localizada em Dublin (Irlanda). Há 30 anos longe dos palcos, o homem de visual andrógino parece cansado de viver: seus movimentos são lentos e sua fala é pausada e rouca, dando uma aparência fragilizada ao personagem de maquiagem forte e cabelos desgrenhados. No entanto, seu cotidiano entediado sofre uma mudança brusca quando ele é avisado que seu pai está à beira da morte. Devido ao medo de viajar de avião, o personagem vai até Nova Iorque de navio, mas chega tarde demais. Após o enterro, ele descobre que seu progenitor esteve preso em Auschwitz durante a II Guerra e, em busca de vingança, teria dedicado o resto de sua vida em busca do nazista que o torturou. Apesar da relação difícil que mantinha com a família, o protagonista decide ir à procura do algoz de seu pai, iniciando uma viagem por diversos cantos dos Estados Unidos.

Ao longo do filme, são apresentados vários personagens, sendo dois deles muito expressivos na vida da figura principal: a esposa Jane (Frances McDorman) e a jovem amiga Mary (Eve Hewson). Casada com o protagonista há 35 anos, a bombeira é a pessoa dominante na relação. Isso fica evidente no contraste das personalidades, pois ela é cheia de energia, extrovertida e atlética enquanto que seu cônjuge é apático, introvertido e vítima de dores musculares. Já a amizade com a adolescente evidencia alguns ressentimentos advindos do passado. Cheyenne se tornou famoso por suas músicas depressivas, as quais teriam culminado no suicídio de dois fãs. O fato de que isso também possa acontecer com Mary o preocupa tanto que ele decide tentar juntá-la com o jovem e apaixonado Desmond (Sam Keeley).


Agraciado com o Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes 2011, Aqui é o Meu Lugar é o quinto longa-metragem do diretor Paolo Sorrentino. Vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2008 por O Divo (El Divo), o cineasta é o principal expoente do chamado Risorgimento, uma geração de realizadores que está trazendo o tradicionalíssimo cinema italiano de volta aos holofotes. O título original do filme é proveniente da música homônima da banda Talking Heads, cujo ex-vocalista, David Byrne, faz uma participação especial no longa-metragem. O show do roqueiro é, inclusive, um momento ímpar dentro da trama, pois é construído de uma forma muito inteligente, com um cenário de fundo que se movimenta durante a apresentação. Além dessa cena, a canção título aparece em várias outras situações e em diversas versões e vozes.

O filme peca, no entanto, no excesso de subtramas como, por exemplo, o sumiço do irmão de Mary e o interesse da banda The Piece of a Shit em ser produzida pelo protagonista.  Essas situações ficam deslocadas, pois não acrescentam sentido à história, somente atrasando o início da jornada do personagem. A extensão excessiva da introdução prejudica o desenrolar do enredo, dando uma ideia de falta de planejamento de seus roteiros. Afinal, o estilo road movie só começa algumas dezenas de minutos após o início da obra. Em contrapartida, as figuras que surgem no decorrer da viagem aparecem de forma rápida, mas acrescentam elementos importantes para o aprofundamento da narrativa.


Apesar de apresentar diversos eu fictícios, Aqui é o Meu Lugar é Cheyenne. Todos os são, na verdade, elementos catalisadores de emoções. Uma das falas de outra figura fictícia, Ernie Ray (Shea Whigham), evidencia um pouco de quem é o protagonista. O homem diz que tem um cão que é manso com todos, mas que, no fundo, é cheio de agressividade. De certa forma, é isso que ocorre com o roqueiro: ele tenta disfarçar suas evidentes angústias oprimindo-se de tal forma que sua raiva somente é demonstrada contra uma mecha de cabelo que teima em cair sobre seu rosto.

Com inspiração no vocalista do The Cure, Robert Smith, o personagem de Sean Penn é dotado de naturalidade, fugindo a qualquer tipo de estereótipos caricaturais. Para dar contraste ao visual pesado, optou-se por uma interpretação pausada, com movimentos lentos, dando fragilidade e expondo a tristeza de Cheyenne. Visando enfatizar as mudanças do personagem, o início do filme é composto de diversos planos em que a movimentação de câmera é devagar, sendo composta até mesmo de alguns slow motions. Já a fotografia aposta no contraste, em que um roqueiro todo de negro parece deslocado no ambiente muito iluminado e repleto de cores quentes. Dentro da composição visual, destaca-se o fato de que a maioria dos personagens terem olhos azuis: Cheyenne, Jane, Mary, a mãe de Mary (Olwen Fouere), o caçador de judeus Monderclai Midler (Judd Hirsch), a garçonete Rachel (Kerry Condon).


No entanto, mais do que qualquer elemento técnico, o destaque do longa-metragem são as falas, em especial as de Cheyenne. Apesar de curtos, os diálogos do personagem são ácidos, contrastando também com a vagarosidade de sua voz. Há discursos de teor cômico como, por exemplo, quando afirma que o primo usa dentadura, pois os dentes dele seriam perfeitos demais para serem reais.  Em contrapartida, também há frases tristes como uma expressão advinda do diário do pai, em que o mesmo diz que há diversos tipos de morte e o pior deles é continuar vivendo.

Aqui é o Meu Lugar é um road movie diferente: seu protagonista viaja em um carro de luxo e anda a maior parte do tempo em companhia de uma mala de rodinhas. Além disso, diferentemente da maioria dos filmes do gênero, a estrada e os locais têm pouca importância. Não se trata, portanto, de uma jornada em que o autoconhecimento está relacionado a novas experiências e aventuras, mas sim a escolhas e reflexões a respeito do passado. A nova obra de Sorrentino é, enfim, a história de um homem que não se adequou ao passar do tempo porque estava preso aos arrependimentos da juventude.

Aqui é o Meu Lugar
Título original: This Must Be the Place
Ano: 2011                   Estreia no Brasi: Jul/2012
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Com: Sean Penn, Frances McDormand, David Byrne, Judd Hirsch, entre outros.
Duração: 118 minutos


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