Em vez de fama, este rockstar
busca autoconhecimento
Ao
telefone, um personagem conversa com a esposa. Num determinado momento, ela questiona
se ele está tentando se encontrar. Em resposta, o protagonista diz que está no
Novo México, não na Índia. No entanto, por mais aguda que seja a fala do eu
fictício, Aqui é o Meu Lugar (This Must Be the Place) é justamente a jornada de
autoconhecimento de um homem que vivia assombrado por acontecimentos do
passado.
Mantendo-se
da renda que construiu durante seus anos de fama, o ex-rockstar Cheyenne (Sean
Penn) leva uma vida pacata em sua mansão localizada em Dublin (Irlanda). Há 30
anos longe dos palcos, o homem de visual andrógino parece cansado de viver: seus
movimentos são lentos e sua fala é pausada e rouca, dando uma aparência
fragilizada ao personagem de maquiagem forte e cabelos desgrenhados. No
entanto, seu cotidiano entediado sofre uma mudança brusca quando ele é avisado
que seu pai está à beira da morte. Devido ao medo de viajar de avião, o personagem
vai até Nova Iorque de navio, mas chega tarde demais. Após o enterro, ele
descobre que seu progenitor esteve preso em Auschwitz durante a II Guerra e, em
busca de vingança, teria dedicado o resto de sua vida em busca do nazista que o
torturou. Apesar da relação difícil que mantinha com a família, o protagonista decide
ir à procura do algoz de seu pai, iniciando uma viagem por diversos cantos dos
Estados Unidos.
Ao
longo do filme, são apresentados vários personagens, sendo dois deles muito
expressivos na vida da figura principal: a esposa Jane (Frances McDorman) e a
jovem amiga Mary (Eve Hewson). Casada com o protagonista há 35 anos, a bombeira
é a pessoa dominante na relação. Isso fica evidente no contraste das personalidades,
pois ela é cheia de energia, extrovertida e atlética enquanto que seu cônjuge é
apático, introvertido e vítima de dores musculares. Já a amizade com a
adolescente evidencia alguns ressentimentos advindos do passado. Cheyenne se
tornou famoso por suas músicas depressivas, as quais teriam culminado no
suicídio de dois fãs. O fato de que isso também possa acontecer com Mary o
preocupa tanto que ele decide tentar juntá-la com o jovem e apaixonado Desmond
(Sam Keeley).
Agraciado
com o Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes 2011, Aqui é o Meu Lugar é
o quinto longa-metragem do diretor Paolo Sorrentino. Vencedor do Prêmio do Júri
do Festival de Cannes 2008 por O Divo (El
Divo), o cineasta é o principal expoente do chamado Risorgimento, uma geração de realizadores que está trazendo o
tradicionalíssimo cinema italiano de volta aos holofotes. O título original do
filme é proveniente da música homônima da banda Talking Heads, cujo ex-vocalista, David Byrne, faz uma participação
especial no longa-metragem. O show do roqueiro é, inclusive, um momento ímpar dentro
da trama, pois é construído de uma forma muito inteligente, com um cenário de
fundo que se movimenta durante a apresentação. Além dessa cena, a canção título
aparece em várias outras situações e em diversas versões e vozes.
O
filme peca, no entanto, no excesso de subtramas como, por exemplo, o sumiço do
irmão de Mary e o interesse da banda The Piece
of a Shit em ser produzida pelo protagonista. Essas
situações ficam deslocadas, pois não acrescentam sentido à história, somente
atrasando o início da jornada do personagem. A extensão excessiva da introdução
prejudica o desenrolar do enredo, dando uma ideia de falta de planejamento de
seus roteiros. Afinal, o estilo road
movie só começa algumas dezenas de minutos após o início da obra. Em contrapartida,
as figuras que surgem no decorrer da viagem aparecem de forma rápida, mas acrescentam
elementos importantes para o aprofundamento da narrativa.
Apesar de apresentar diversos eu fictícios, Aqui é o Meu Lugar é Cheyenne. Todos os
são, na verdade, elementos catalisadores de emoções. Uma das falas de outra
figura fictícia, Ernie Ray (Shea Whigham), evidencia um pouco de quem é o protagonista.
O homem diz que tem um cão que é manso com todos, mas que, no fundo, é cheio de
agressividade. De certa forma, é isso que ocorre com o roqueiro: ele tenta
disfarçar suas evidentes angústias oprimindo-se de tal forma que sua raiva
somente é demonstrada contra uma mecha de cabelo que teima em cair sobre seu
rosto.
Com inspiração no vocalista do The Cure, Robert Smith, o personagem de
Sean Penn é dotado de naturalidade, fugindo a qualquer tipo de estereótipos
caricaturais. Para dar contraste ao visual pesado, optou-se por uma
interpretação pausada, com movimentos lentos, dando fragilidade e expondo a
tristeza de Cheyenne. Visando enfatizar as mudanças do personagem, o início do
filme é composto de diversos planos em que a movimentação de câmera é devagar, sendo
composta até mesmo de alguns slow motions.
Já a fotografia aposta no contraste, em que um roqueiro todo de negro parece
deslocado no ambiente muito iluminado e repleto de cores quentes. Dentro da
composição visual, destaca-se o fato de que a maioria dos personagens terem
olhos azuis: Cheyenne, Jane, Mary, a mãe de Mary (Olwen Fouere), o caçador de
judeus Monderclai Midler (Judd Hirsch), a garçonete Rachel (Kerry Condon).
No entanto, mais do que qualquer elemento
técnico, o destaque do longa-metragem são as falas, em especial as de Cheyenne.
Apesar de curtos, os diálogos do personagem são ácidos, contrastando também com
a vagarosidade de sua voz. Há discursos de teor cômico como, por exemplo, quando
afirma que o primo usa dentadura, pois os dentes dele seriam perfeitos demais
para serem reais. Em contrapartida,
também há frases tristes como uma expressão advinda do diário do pai, em que o
mesmo diz que há diversos tipos de morte e o pior deles é continuar vivendo.
Aqui é o Meu Lugar é um road
movie diferente: seu protagonista viaja em um carro de luxo e anda a maior
parte do tempo em companhia de uma mala de rodinhas. Além disso, diferentemente
da maioria dos filmes do gênero, a estrada e os locais têm pouca importância. Não se trata,
portanto, de uma jornada em que o autoconhecimento está relacionado a novas
experiências e aventuras, mas sim a escolhas e reflexões a respeito do passado. A nova obra
de Sorrentino é, enfim, a história de um homem que não se adequou ao passar do
tempo porque estava preso aos arrependimentos da juventude.
Aqui
é o Meu Lugar
Título original: This Must Be the Place
Ano: 2011 Estreia no Brasi: Jul/2012
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto
Contarello
Com: Sean Penn, Frances McDormand, David
Byrne, Judd Hirsch, entre outros.
Duração: 118 minutos





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